Moramos na cidade do tédio (com um T bem grande)
Sábado, 14 janeiro de 1995. Eu era um moleque recém-chegado à adolescência em uma cidade sem cinema, teatro e livraria, num período imediatamente anterior às maravilhas da internet e à praticidade dos celulares.
Comparada à rotina dos teenagers de hoje, com todos os seus brinquedinhos tecnológicos e a quantidade absurda de ferramentas de pesquisa (o que não resulta, necessariamente, em conhecimento e conteúdo, diga-se), minha vidinha era uma carroça em um vilarejo medieval cinza e enfumaçado. A Biblioteca Municipal - modesta, mas com respeitável acervo - era o único espaço de acesso à informação naqueles tempos.
Naquela tarde, como em todas as outras, eu não tinha absolutamente nada para fazer quando resolvi procurar meus amigos no QG da ‘tchurma’, uma oficina onde se produziam faixas e camisetas. Eram caras mais velhos, ligados ao movimento cultural e meus conhecidos desde a infância.
Apesar da distância e de alguns desentendimentos ao longo dos anos, justiça seja feita, contribuíram bastante para minha formação. Mas como não quero reduzir esse texto a uma tese de filosofia sobre o meu umbigo, avanço nas descrições desnecessárias para tratar do personagem que realmente importa.
Com quem você quer falar por horas e horas e horas ...
Quando entrei na sede da microempresa dos meus amigos, sequer poderia imaginar os diálogos surreais que testemunharia logo a seguir. Reunidos em torno da mesa onde ficava o telefone, eles eram só entusiasmo.
“Ei, Dojinho (sim, esse é meu nome. Dojival é apelido). Sabe com quem o Valdemar está falando? Com o Renato Russo”, sussurrou o Oliveira, tomando o devido cuidado para não atrapalhar o diálogo entre o ator mais popular de Boatão e o líder da Legião Urbana. (os nomes aqui, obviamente, são fictícios, exceto Dojival, que bem poderia ser).
A banda estava encerrando a turnê do disco O Descobrimento do Brasil e se apresentaria naquela noite na extinta casa de shows Reggae Night, em Santoxx, município vizinho. Cético e chato desde aquela época, demorei a acreditar que Valdemar Vieira, no auge de sua fase esotérica e da idolatria pelo cantor, do qual todos éramos fãs, tinha conseguido o contato com a lenda do rock brasuca.
“Deixa eu falar com ele, então, cara. Alô, Renato, tudo bem?”, disse, sem botar muita fé.
A resposta do outro lado da linha veio lacônica, mas inconfundível. “Tudo jóia”. Foi o suficiente para que eu soubesse com quem estava falando. Em 30 segundos, disparei uma série de comentários sobre as músicas que já tinha escrito; o Liberdade Condicional, meu primeiro grupo; meus avanços na guitarra; as faixas que eu mais gostava do último disco; e uma tonelada de perguntas.
Ele apenas pontuava meu monólogo irritantemente juvenil com um “legal” e um “jóia” aqui e ali. Era tanta empolgação e tão curto o tempo disponível que eu não dava muitas brechas.
Música de Trabalho (os temores que nascem do cansaço e da solidão)
Valdemar teve mais sorte. À caça do ídolo, havia ligado para todos os hotéis da região apresentando-se como presidente da Associação dos Homossexuais da Baixada Santista (cargo que realmente tinha ocupado). Depois de falar com produtores, roadies e o resto do mundo, finalmente encontrou o ramal do vocalista.
Em quase duas horas de papo, Renato esbanjou sua conhecida erudição, indicando livros como Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas, clássico de Robert M. Pirsig que li muito tempo depois. Entretanto, recusou com veemência o papel de guru ou porta-voz de qualquer coisa.
“Sou apenas alguém que escreve músicas, cara. É meu trabalho”, teria dito o legionário, em tom que meu amigo interpretou como um híbrido de amargura e cansaço. Esses dois ingredientes seriam potencializados horas mais tarde, infelizmente, naquele que foi o último show da carreira da Legião.
O pessoal ganhou ingressos e presenciou a despedida. Muito pirralho, não tinha a idade mínima exigida para entrar na casa.
No dia seguinte, contaram que, após a segunda lata de cerveja ter sido arremessada ao palco, o cantor interrompeu bruscamente o show e fez um daqueles discursos irados. Nos 40 minutos seguintes, encontrou a sua maneira de revidar e demonstrar insatisfação com a falta de respeito de parcela do público: deitou próximo ao set dos teclados, e, entre uma frase musical e outra, ficava olhando o relógio. Levando em consideração tudo o que lamentavelmente aconteceu no ano seguinte, dá para entender.
PS: Anos mais tarde, quando já trabalhava como repórter musical, entrevistei diversas vezes pessoas ligadas a ele, a começar pelos dois ex-integrantes da banda, Dado e Bonfá. Também escrevi matérias com Capital Inicial, Plebe Rude e a irmã do vocalista, Carmem Teresa Manfredini, que me atendeu com muita simpatia.
Extremamente articulado, Renato era um poço de cultura pop e um dos grandes letristas da história do rock no Brasil. Teria sido um entrevistado e tanto. Há exatos 15 anos, faz uma falta danada num cenário musical cada vez mais medíocre e infantilizado.