sábado, 31 de dezembro de 2011

Leituras Recentes


1- Tanto Faz (Reinaldo Moraes)
2- Abacaxi (Reinaldo Moraes)
3- Pornopopeia (Reinaldo Moraes)
4-Cartas na Rua (Charles Bukowski)
5- Cuca Fundida (Woody Allen)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Rock 'n' Réquiem


Ele sabia que tinha sido mais evasivo que o Bob Dylan numa daquelas coletivas de imprensa do início da carreira, sem o mesmo charme e a inteligência cortantes, evidentemente. Mas não havia forma de explicar a chegada de sua carreira solo, totalmente independente.

Aquele relacionamento, que tinha começado com a pulsação cocaínica da new wave, havia se transformado num modorrento e interminável disco ruim de rock progressivo, com todas as suas mudanças de andamento e firulas irritantes.

"Vamos dar um tempo, respirar um pouco. Depois a gente vê o que faz", ela disse, sem muita convicção.

"Recesso por tempo indeterminado? De jeito nenhum. Isso é coisa de banda de barbudinho megalomaníaco que goza com o pau do Chico Buarque ou, no mínimo, se acha o último encordoamento do violão de náilon do João Gilberto! Bandas de verdade, assim como relacionamentos e tudo o mais, acabam. Podem até ter um revival lá na frente, mas terminam...

"(interrompendo)... Você tá falando do Camala, né? Pois eu acho uma tremenda besteira isso. Implicância ridícula com o cara, meu."

"Olha, pode ser. Mas eu acho que esse papo de se encontrar só pra suprir nossas carências, em bailes íntimos da saudade sexual, quando nossa conta bancária afetiva estiver chegando no vermelho, não tem nada a ver. Hoje, vejo que você foi meu Araçá Azul, meu Tudo ao Mesmo Tempo Agora..."

"Como assim? Que porra é essa? Me explica isso direito..."

"Quando a gente começou, eu me sentia como aquele músico cansado de babação de ovo e do conforto do sucesso que resolveu experimentar, cometer aquela saudável porra-louquice. Aquele tipo de loucura libertadora que precede um fracasso iminente."

"Porra, não podia morrer sem saber disso.."

"De nada. E eu vou terminar esse papo por aqui. Escrever texto extenso em blog é como jam session longa de banda ruim: para quem está tocando é uma beleza. Quem se cansa é o público. Rock 'n' Réquiem. It's All Over Now, Baby Blue!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diálogo de velhos desconhecidos



"Então, foi para isso que eu dediquei todos aqueles anos aprendendo sobre técnicas de pintura e delirando que um dia seria Dalí?", berrava comigo o fedelho, com aquele arzinho de superioridade típico dos primeiros anos da juventude e o dedo bem apontado pra minha cara.

"Não faço ideia do que você tá falando, moleque. Aliás, quem é você? O que está acontecendo? Me respeita!", respondi, cuspindo os meus anos vividos nas fuças do rapazinho, em uma tentativa inútil de impor alguma autoridade.

"Hahahaha. No fundo, você sempre foi muito engraçado, cara. Até parece que não me conhece", rebateu o jovem.

"Não conheço mesmo. A propósito, vou indo nessa, tenho muito o que fazer. Reconheço que estou ficando cada vez mais intolerante com gente da sua idade. São uns estúpidos, prepotentes, não sabem de merda nenhuma, mas vendem e alugam respostas para tudo, principalmente, quando ninguém pede".

"Mas é um ridículo. E você, que parou até de fazer perguntas, ou, pelo menos, não questiona mais sobre o que realmente importa."

"Olha, não me vem com esse papinho de auto-ajuda, essa f(é)st food babaca, que eu tô começando a ficar cansado dessa nossa conversa..."

"(interrompendo) Pode parar. Vou deixar as coisas mais claras para você. Eu estou falando, ô, cretino, das horas intermináveis que eu passei trancado em casa estudando, aperfeiçoando o talento para as artes plásticas que todos reconheciam, sonhando e sonhando, num tempo em que a matéria onírica não envelhecia (lembra?), com as exposições internacionais e o sucesso inebriante. Tá começando a fazer sentido pra você, tiozinho?"

"Sim, e daí?"

"Daí que tudo aquilo, todos aqueles projetos, viraram essa coisa patética que está diante de mim."

"Moleque, pega leve, já falei. Olha que eu te dou um tranco pra ficar esperto."

"Dá nada, dá nada", respondeu o garoto, sem economizar o sarcasmo. Eu sei que você não é dessas coisas. Nunca foi de violência, muito pelo contrário. És um tremendo bunda mole, isso sim, que ataca e se defende só com as palavras."

"Olha que eu perco a paciência.."

"Eu é que não tenho mais paciência, cara. Você me traiu. Eu tinha tantos planos e nenhuma dúvida de que realizaria todos eles antes de chegar aos trinta. E você o que fez? Só me decepcionou, não teve a ousadia necessária para concretizá-los e virou um cover vagabundo de si mesmo. A sua vida, quer dizer, a nossa (porque você é tudo, menos burro, pra não ter percebido ainda que eu sou a sua versão Tiny Toon) é uma Sessão da Tarde, um eterno Vale a Pena Ver de Novo.

"Como assim, moleque. Tá viajando? Agora, é você quem vai ouvir, meninão. Eu fiz tudo o que estava a meu alcance. Mandei meu trabalho para todos os que podiam me ajudar nesse cenário das artes plásticas. Tentei instigar movimentos na minha província, organizar exposições com outros artistas talentosos da minha geração. Mas nada adiantou. Simplesmente não rolou. E agora?"

"Você não fez o suficiente. É um absurdo que você se conforme em trabalhar num escritoriozinho com o talento que você tinha."

"Pode ser. Entendo o que você diz e não pense que não me torturo sempre pelo fato de as coisas (ainda?) não terem acontecido para mim. Sei que isso te magoa muito, caramba. Mas não se esqueça de algumas questões: antes de me cobrar, de dizer que eu emburreci porque não conheço aquele filme do novo diretor iraniano do momento, lembre-se de que eu (logo, você) cresci num lugar em que sequer havia cinema."

"Tá começando a achar pretexto..."

"Não, nada disso. É que o tempo faz a gente se perdoar e compreender algumas questões. Por isso, antes de me jogar na cara que o meu currículo acadêmico não é lá grande coisa, lembre-se de que estudou na precária Universidades Smith's, como você carinhosamente apelidou o colégio em que fez o Ensino Médio. No primeiro ano de faculdade, a internet já era uma realidade e sua turma ainda usava máquina de escrever. Houve um tempo em que você sequer tinha grana pra comprar tinta. Isso não é pretexto, nem desculpinha precoce pra justificar o fracasso. Claro que outros enfrentaram dificuldades muito maiores. Mas tente lembrar sempre quais eram as condições em que você começou a batalhar espaço e perdoe-se de vez em quando, moleque."

"Tô com peninha de você. Tão autocomplacente, desde a infância.."

"Bom, eu tentei explicar. Qualquer hora a gente se encontra e acerta isso. Tchau."

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Leituras Recentes


1- Rum: Diário de um Jornalista Bêbado (Hunter S. Thompson)
2- O Vermelho e o Negro (Stendhal)
3- No Direction Home - A Vida e a Música de Bob Dylan (Robert Shelton)
4- Notas do Subsolo (Dostoiévski)
5- Os Irmãos Karamázov (Dostoiévski)
6- Moby Dick (Herman Melville)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Especial - O Dia do meu Monólogo com Renato Russo



Moramos na cidade do tédio (com um T bem grande)

Sábado, 14 janeiro de 1995. Eu era um moleque recém-chegado à adolescência em uma cidade sem cinema, teatro e livraria, num período imediatamente anterior às maravilhas da internet e à praticidade dos celulares.
Comparada à rotina dos teenagers de hoje, com todos os seus brinquedinhos tecnológicos e a quantidade absurda de ferramentas de pesquisa (o que não resulta, necessariamente, em conhecimento e conteúdo, diga-se), minha vidinha era uma carroça em um vilarejo medieval cinza e enfumaçado. A Biblioteca Municipal - modesta, mas com respeitável acervo - era o único espaço de acesso à informação naqueles tempos.
Naquela tarde, como em todas as outras, eu não tinha absolutamente nada para fazer quando resolvi procurar meus amigos no QG da ‘tchurma’, uma oficina onde se produziam faixas e camisetas. Eram caras mais velhos, ligados ao movimento cultural e meus conhecidos desde a infância.
Apesar da distância e de alguns desentendimentos ao longo dos anos, justiça seja feita, contribuíram bastante para minha formação. Mas como não quero reduzir esse texto a uma tese de filosofia sobre o meu umbigo, avanço nas descrições desnecessárias para tratar do personagem que realmente importa.

Com quem você quer falar por horas e horas e horas ...

Quando entrei na sede da microempresa dos meus amigos, sequer poderia imaginar os diálogos surreais que testemunharia logo a seguir. Reunidos em torno da mesa onde ficava o telefone, eles eram só entusiasmo.
“Ei, Dojinho (sim, esse é meu nome. Dojival é apelido). Sabe com quem o Valdemar está falando? Com o Renato Russo”, sussurrou o Oliveira, tomando o devido cuidado para não atrapalhar o diálogo entre o ator mais popular de Boatão e o líder da Legião Urbana. (os nomes aqui, obviamente, são fictícios, exceto Dojival, que bem poderia ser).
A banda estava encerrando a turnê do disco O Descobrimento do Brasil e se apresentaria naquela noite na extinta casa de shows Reggae Night, em Santoxx, município vizinho. Cético e chato desde aquela época, demorei a acreditar que Valdemar Vieira, no auge de sua fase esotérica e da idolatria pelo cantor, do qual todos éramos fãs, tinha conseguido o contato com a lenda do rock brasuca.
“Deixa eu falar com ele, então, cara. Alô, Renato, tudo bem?”, disse, sem botar muita fé.
A resposta do outro lado da linha veio lacônica, mas inconfundível. “Tudo jóia”. Foi o suficiente para que eu soubesse com quem estava falando. Em 30 segundos, disparei uma série de comentários sobre as músicas que já tinha escrito; o Liberdade Condicional, meu primeiro grupo; meus avanços na guitarra; as faixas que eu mais gostava do último disco; e uma tonelada de perguntas.
Ele apenas pontuava meu monólogo irritantemente juvenil com um “legal” e um “jóia” aqui e ali. Era tanta empolgação e tão curto o tempo disponível que eu não dava muitas brechas.


Música de Trabalho (os temores que nascem do cansaço e da solidão)

Valdemar teve mais sorte. À caça do ídolo, havia ligado para todos os hotéis da região apresentando-se como presidente da Associação dos Homossexuais da Baixada Santista (cargo que realmente tinha ocupado). Depois de falar com produtores, roadies e o resto do mundo, finalmente encontrou o ramal do vocalista.
Em quase duas horas de papo, Renato esbanjou sua conhecida erudição, indicando livros como Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas, clássico de Robert M. Pirsig que li muito tempo depois. Entretanto, recusou com veemência o papel de guru ou porta-voz de qualquer coisa.
“Sou apenas alguém que escreve músicas, cara. É meu trabalho”, teria dito o legionário, em tom que meu amigo interpretou como um híbrido de amargura e cansaço. Esses dois ingredientes seriam potencializados horas mais tarde, infelizmente, naquele que foi o último show da carreira da Legião.
O pessoal ganhou ingressos e presenciou a despedida. Muito pirralho, não tinha a idade mínima exigida para entrar na casa.
No dia seguinte, contaram que, após a segunda lata de cerveja ter sido arremessada ao palco, o cantor interrompeu bruscamente o show e fez um daqueles discursos irados. Nos 40 minutos seguintes, encontrou a sua maneira de revidar e demonstrar insatisfação com a falta de respeito de parcela do público: deitou próximo ao set dos teclados, e, entre uma frase musical e outra, ficava olhando o relógio. Levando em consideração tudo o que lamentavelmente aconteceu no ano seguinte, dá para entender.

PS: Anos mais tarde, quando já trabalhava como repórter musical, entrevistei diversas vezes pessoas ligadas a ele, a começar pelos dois ex-integrantes da banda, Dado e Bonfá. Também escrevi matérias com Capital Inicial, Plebe Rude e a irmã do vocalista, Carmem Teresa Manfredini, que me atendeu com muita simpatia.
Extremamente articulado, Renato era um poço de cultura pop e um dos grandes letristas da história do rock no Brasil. Teria sido um entrevistado e tanto. Há exatos 15 anos, faz uma falta danada num cenário musical cada vez mais medíocre e infantilizado.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A vesícula e o preciosismo de Deus



Prezado Deus,

reproduzo a frase espirituosa de um best-seller dos nossos tempos e deixo bem claro, antes de interpretarem o texto como imperdoável heresia, que "sempre fui fã do seu trabalho". Apesar de ser pagão até hoje e não seguir religião alguma, jamais duvidei de sua existência e até mantenho frequente diálogo com o senhor, velho camarada que, mesmo nos maiores perrengues, nunca me abandona.
Mas, aqui embaixo, imerso em minha insignificância, peço antecipadamente desculpas pela ousadia de lhe enviar uma proposta baseada em acontecimentos recentes e algo incômodos.Considere esse pedido como uma crítica fundamentada em nobres intenções, sem a pretensão de questionar o manual de sua obra.
Bom, deixo a embromação de lado, para chegar perto do teu ouvido celestial e soprar-te a seguinte sugestão: na próxima safra de seres humanos, que tal realizar um upgrade no modelo já bem batidinho dessa espécie e subtrair a vesícula? Não seria mais útil um cabo USB, um Ipad ou até mesmo um afinador eletrônico?
Aqui, no passado, ainda produzindo esse texto, antevejo expressões sinceras de espanto e sonoras imprecações contra meu atrevimento. (Nota do Blog: Não, não blasfemo, minha gente. Tenham paciência e deixem que me explique, por favor).
Entendo perfeitamente que, em períodos remotos, a vesícula deve ter exercido papel relevante no processo digestivo do homem, que se alimentava apenas de comida crua. Entretanto, segundo médicos consultados - inclusive o doutor que, dentro de um mês, irá extrair o órgão já citado do corpo deste que vos escreve -, após a retirada da vesícula, a vida segue seu curso e não há qualquer alteração na rotação da terra.
Logo, chego a cogitar que ela, coladinha ao fígado, é atualmente um exemplo de vosso preciosismo, uma prima chata do apêndice, cuja única finalidade é provar a força da Lei de Murphy. Em termos absolutamente terrenos, seria como aquele toquinho de calcanhar do Ganso em uma partida importante da Copa América, que só serve para irritar quando o adversário rouba a bola e arma o contra-ataque.
A irritação, no meu caso, e no de milhões de pessoas (tava pensando que eu ia me fazer de coitadinho, né? Te peguei), ocorre quando os chamados cálculos biliares, popularmente conhecidos como pedras, formam-se no interior da vesícula, causando cólicas capazes de provocar dores lancinantes. Nada que um Buscopan bem posicionado na bolsa não amenize e uma videolaparoscopia, felizmente já marcada, não resolva. Coisa relativamente simples.
Pensando bem, Todo Poderoso, sinto que, mais uma vez, apenas demonstrei minha estupidez e a incapacidade crônica de compreender sua nem sempre alcançável sabedoria. Sim, porque, sem esse transtorno passageiro, não teria entrado na dieta radical (sem gordura, fritura, queijo, leite, chocolate, bebida alcoólica e outras tantas coisas) que me fez perder, em apenas dois meses, dez quilos (esses sim, totalmente inúteis). Tampouco o eletrocardiograma e o exame de sangue me dariam tantas alegrias.
Por isso, Senhor, esqueça minhas tolas sugestões e receba meu humilde agradecimento. Reclamo de barriga estufada (sem trocadilhos), ignorando, por um segundo, que tenho muito a comemorar e que tantos outros enfrentam obstáculos infinitamente maiores.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Banda de Pobre Rock


Pensa rápido: quando foi a última vez em que uma nova banda de rock brasileiro com temática adulta ocupou espaço de destaque na seara musical? Veja bem, meu bem, sei que as definições de relevância e bom gosto são subjetivas, mas compartilho uma pulga confortavelmente instalada em minha orelha há algum tempo, que, volta e meia, faz perguntas sobre a infantilização da rebeldia e os meios de comunicação voltados ao público jovem.
Bom, não sei quanto a você, mas, pelas contas do "tiozão" aqui, já se passaram uns 15anos desde que algo realmente impactante monopolizou as atenções de quem se interessa por novidades no cenário roqueiro. Sim, no universo indie não faltam bandas tão talentosas quanto injustiçadas, íntimas da crítica musical e a quilômetros de distância do ouvido popular.
No outro extremo, o rock usa calças cada vez mais curtas e coloridas, no chamado primeiro escalão, balbuciando um romantismo púbere, inofensivo e injustificável para maiores de 18 anos.
Alguém pode citar o Los Hermanos, que, noves fora a maletice e as egotrips de seus integrantes, produziram música bem acima da média de seus contemporâneos, com pelo menos dois discos essenciais (Bloco do Eu Sozinho e Ventura). Mas os barbudos, que resolveram decretar "recesso por tempo indeterminado" em 2007, não demonstravam qualquer afeição por rótulos, logo, não se encaixavam na definição cada vez mais rara de "banda de rock", apesar de um hardcorezinho aqui e uma guitarrinha com distorção acolá.
Pois esqueçamos a turma de Marcelo Camala (que, a propósito, só exala pretensão em sua carreira solo e ainda não conseguiu produzir nada de qualidade sequer equivalente às canções de seu antigo grupo). Alguém pode me dizer onde se encontra um representante bem-sucedido desse gênero que não tenha mais de cinco anos de carreira? Houve um esgotamento?
Enfim, tenho mais perguntas que respostas, mas acredito que a última safra de roqueiros brasucas realmente importante - composta por artistas como Planet Hemp e Raimundos - veio ao mundo nos anos 1990 (e aqui não há nenhuma dose de saudosismo do "tiozão").
Não concorda? Então, o que você me diz?

sábado, 30 de julho de 2011

Não tire o meu preconceito do armário!


O trágico fim reservado ao casal gay do folhetim global Insensato Coração expõe a faceta mais resistente e, justamente por isso, mais perversa do preconceito. No país onde é concedido a cada um o direito de enlouquecer durante quatro dias no mês de fevereiro, quando as excentricidades são mais toleradas e os limites sexuais deixam de ser claramente definidos, temos a incômoda dificuldade para lidar com a homossexualidade sem a máscara carnavalesca ou a velha caricatura típica dos programas humorísticos de gosto duvidoso.
Se não fui claro o suficiente até o momento, me explico em termos mais diretos: o brasileiro médio acha graça e, até sente certa simpatia, pela "bichinha alegórica" ou o cabelereiro afetado e espalhafatoso. Entretanto, ainda não amadureceu o suficiente para considerar normal o relacionamento afetivo entre dois homens ou duas moças comuns, com trabalho, rotina, família, CIC, RG e impostos a pagar iguais a mim e a você, caríssimo leitor.
Em recente pesquisa do Ibope, 55% dos entrevistados declararam-se contrários à adoção de crianças por casais homoafetivos e à decisão do Supremo Tribunal Federal que permitiu a união civil entre gays. Curiosamente, os brasileiros mostraram-se mais tolerantes (termo bastante perigoso) em relação ao círculo de amizades: 73% disseram que não se afastariam de um amigo, caso ele se revelasse homossexual.
Logo, não é difícil imaginar a intensidade da pressão que os autores Gilberto Braga e Ricardo Linhares sofreram da direção da Globo, sempre atenta aos clamores da opinião pública, para que retirassem da trama o casal formado por Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andrade).
Resultado: o fantasminha infeliz e traiçoeiro da censura, que já se insinuava há algum tempo, engrossou a lista de episódios reveladores da hipocrisia que vitimou outros personagens novelescos. Na prática, a lógica da maioria dos espectadores funciona mais ou menos assim: eu até permito que você exista, mas fique na sua, quietinho, não se expresse, porque isso tira o meu preconceito do armário.
Eu juro que consigo imaginar o "seu Almeida" e a "dona Maria", confortavelmente instalados no sofá, assistindo à mais tradicional revista eletrônica brasileira, exibida pela mesma emissora. "Ei, Maria, esse rapaz é tão inteligente, né? Viajou o mundo inteiro, tão educado. É bicha, Maria?"
"Eu acho que é, mas ele fica na dele e tem de ficar mesmo. Pra que dizer, né? Não precisa", responde a dona de casa, encerrando o assunto.
Então, eu me pergunto e estendo algumas questões ao leitor camarada: Ninguém é obrigado a expor sua sexualidade em lugar algum, mas, vamos supor que seja realmente gay esse "rapaz antenado" (um dos caras que sempre respeitei no jornalismo, detentor de um repertório cultural digno do termo enciclopédico). Fosse um homossexual assumido, teria ele se tornado apresentador do programa que há 38 anos invade os lares de milhões de brasileiros nas noites de domingo?
Por quanto tempo continuaria no comando da atração? De que maneira um profissional tão respeitado poderia contribuir para o combate ao preconceito num contexto em que pai e filho foram brutalmente agredidos em uma cidade do interior paulista por homofóbicos que os confundiram com um casal?
Com a palavra, o "seu Almeida", a "dona Maria", o José, a Patrícia e quem mais quiser falar.

sábado, 23 de julho de 2011

Museu de grandes novidades (Amy, eu vi o futuro repetir o passado)


Mais uma da série "O Mundo é uma Matéria Fria": Amy Winehouse morre aos.....27 anos, de.....overdose. Daqui a pouco, a Adele dirá que sentiu muito a morte da cantora e prestará sua homenagem gravando um single que venderá milhões e encherá os cofres das gravadoras. Logo, descobrirão o disco inédito da Amy, aquele que ela se esforçou tanto para lançar em vida. O álbum chegará ao mercado com várias faixas repetidas e overdubs. Haverá quem duvide da autenticidade do produto e o assunto será amplamente debatido nas revistas especializadas.
O GNT exibirá o especial "As últimas horas de Amy" e, no ano que vem, o Multishow transmitirá o programa "Um Ano sem Amy". A próxima capa da Rolling Stone trará a intérprete inglesa em uma foto p&b, com a data de nascimento e a de morte. Um diretor oportunista fará a cinebiografia da alucinada diva e o pai dela, o espertinho seu Mitch, que até se lançou na carreira musical em 2010, escreverá um livro de memórias.
O tranqueira Blake Fielder-Civil, ex-marido dela, morre daqui a pouquinho, assim como a Pamela, que bateu as botas três anos depois (em 1974) da morte do Jim Morrison. A propósito, não custa repetir: o "Rei Lagarto" integra a extensa lista de ícones do pop mortos aos 27 anos, que inclui Hendrix, Janis, Brian Jones, Kurt Cobain e Gram Parsons.
Algum "gênio" sem noção do stand-up dirá que Amy não morreu e que o noticiário está apenas reproduzindo uma jogada de marketing, assim como o "falecimento" do comediante, "repórter" e amigo das celebridades Amin Khader, mas em escala planetária, evidentemente. Outros malucos, daqui a pouco tempo, também defenderão a tese, mas com argumento distinto: a intérprete simulou a morte para escapar da massacrante pressão de empresários e da gravadora, que cobravam um sucessor à altura do segundo álbum Back to Black, pepita que alçou a britânica ao estrelato mundial, no já distante 2006.
Haverá aqueles que garantirão ter visto Amy novamente em férias na Jamaica,convertida à religião rastafári, ou escondida em um convento construído num vilarejo no sul da Inglaterra. Não faltará quem afirme categoricamente que compartilhou umas garrafas com a estrela em um boteco na Lapa, ao som de algum novo representante do samba carioca.

Antes de concluir, um aviso: toda essa especulação não representa de maneira alguma desrespeito ao sofrimento de fãs e familares da intensa artista que redimensionou a importância da soul music para sua geração. Tampouco desmerece a obra fenomenal que construiu em uma trajetória tão curta. Mas, em vez de tristeza, essa historinha repetida, esse clichê abominável do mundo pop, me cansa e irrita, de tão previsível e estúpido. Como posso me espantar quando um cara que passa anos ameaçando atirar-se do 12º andar finalmente se joga?


PS: A mãe da falecida chama-se Janis o que, definitivamente, comprova que o roteirista cósmico não anda lá muito criativo em relação a nomes.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Leituras recentes

1- Quem Matou Palomino Molero? - Mario Vargas Llosa
2- Pantaleão e as Visitadoras - Mario Vargas Llosa
3- Ultraje a Rigor - Nós Vamos Invadir Sua Praia - Andréa Ascenção
4- Realidade Revista - José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro
5- Misto Quente - Charles Bukowski
6- Factótum - Charles Bukowski
7- Bufo & Spallanzani - Rubem Fonseca
8- A Volta ao Mundo em Oitenta Dias - Júlio Verne